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Crédito rural: inadimplência chega a 9,7% e carteira problemática soma R$ 205 bilhões, aponta estudo

por administrador
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Análise de pesquisadores do Cepea/Esalq-USP relaciona avanço dos atrasos ao encarecimento do crédito, à redução das margens dos grãos e à mudança nas fontes de financiamento

A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas atingiu 9,69% em agosto de 2026, maior nível da série do Banco Central, ante 0,77% em dezembro de 2022. O avanço, porém, representa apenas parte das dificuldades financeiras no campo: considerando também operações com atrasos menores, prorrogadas e renegociadas, a carteira problemática alcançou R$ 205 bilhões, ou 23,8% do crédito rural registrado no Sicor.

Os dados integram o texto para discussão Endividamento rural no Brasil, 2013–2026: custo, composição e concentração da dívida por trás da inadimplência recorde, elaborado por Lucilio R. A. Alves e Geraldo S. A. de C. Barros, pesquisadores do Cepea, da Esalq/USP.

A análise sustenta que o tamanho da dívida em relação à renda agregada não explica, isoladamente, o recorde de inadimplência. O diagnóstico aponta para uma combinação de juros mais elevados, maior participação do crédito a taxas de mercado e vencimento de investimentos em um período de margens menores, especialmente nos grãos.

Operações a taxas de mercado concentram 77% do saldo em atraso

A diferença entre as modalidades de financiamento é um dos principais resultados do estudo. Em agosto de 2026, a inadimplência do crédito rural de pessoas físicas era de 17,6% nas operações a taxas de mercado, contra 3,8% nas operações a taxas controladas.

Segundo os cálculos dos autores, o crédito a taxas de mercado representava aproximadamente 43% do saldo das pessoas físicas, mas concentrava cerca de 77% do valor inadimplente.

Essa exposição aumentou com a transformação das fontes de financiamento. Na classificação utilizada pelo estudo, os recursos privados com taxas livres passaram de 5% das contratações em 2013 para 47% em 2023, ficando em 40% em 2025.

Para os pesquisadores, a mudança tornou uma parcela maior da dívida sensível ao movimento dos juros de mercado.

Conta estimada de juros quase triplica entre 2021 e 2025

A taxa média das novas concessões de crédito rural a pessoas físicas passou de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025.

Aplicando essas taxas à carteira ativa, o estudo estima que a despesa anual com juros tenha aumentado de aproximadamente R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, em valores corrigidos para 2025. Em relação à renda agropecuária, o peso estimado passou de 3,9% para 11,4%.

Os autores ressaltam que o cálculo indica uma ordem de grandeza, e não o desembolso efetivamente observado. Em períodos de alta dos juros, utilizar a taxa dos novos contratos pode superestimar o custo do estoque, pois parte das operações antigas mantém encargos menores.

Ainda assim, a estimativa evidencia o aumento da pressão financeira sobre a atividade.

Relação entre dívida e renda não explica sozinha a inadimplência

Em 2025, a relação entre a carteira de financiamentos rurais e o PIB-renda da agropecuária ficou em 94%, dentro da faixa observada entre 2013 e 2019, de 87% a 109%.

Apesar disso, a inadimplência de dezembro de 2025 alcançou 6,6%, aproximadamente três vezes a média dos meses de dezembro daquele período anterior.

A comparação é central para o diagnóstico: uma relação semelhante entre dívida e renda passou a conviver com atrasos muito maiores.

O estudo também alerta que o indicador agregado reúne atividades e produtores em situações distintas. A recuperação da renda de um segmento não significa, necessariamente, melhora da capacidade de pagamento de outro.

Renegociações revelam dimensão maior das dificuldades

Na classificação construída a partir do Boletim do Crédito Rural e do Proagro, a carteira problemática reúne operações inadimplentes, com atraso de até 90 dias, prorrogadas e renegociadas.

Em agosto de 2026, os aproximadamente R$ 205 bilhões estavam distribuídos em:

  • R$ 105 bilhões em operações renegociadas;
  • R$ 31 bilhões em operações prorrogadas;
  • R$ 48,5 bilhões em operações inadimplentes;
  • R$ 21 bilhões em operações com atrasos de até 90 dias.

Entre agosto de 2024 e agosto de 2026, essa carteira passou de R$ 95 bilhões para R$ 205 bilhões, e sua participação no total aumentou de 12,5% para 23,8%.

Os pesquisadores destacam que essa medida é mais ampla do que o conceito prudencial de “ativo problemático” utilizado pelo Banco Central. Também não deve ser confundida com a taxa de inadimplência de pessoas físicas, pois as bases e os recortes são diferentes.

Rio Grande do Sul concentra renegociações; outros estados têm atrasos maiores

Cinco estados reuniam 59% da carteira problemática nacional em agosto: Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Paraná.

O Rio Grande do Sul liderava em valor, com R$ 44,2 bilhões, equivalentes a 39,2% de sua carteira. No estado, 32,7% do crédito estava renegociado ou prorrogado, enquanto 3,2% estava inadimplente, conforme o recorte do Sicor utilizado nessa comparação.

O estudo associa essa composição às prorrogações concedidas após as enchentes de 2024 e à posterior conversão de parte dessas operações em renegociações.

Em outros estados, o problema aparece mais diretamente nos atrasos. Na mesma base, a inadimplência era de 8,8% em Goiás, 7,4% em Mato Grosso do Sul e 6,3% em Mato Grosso. Maranhão e Tocantins apresentavam taxas superiores a 15%.

Em Minas Gerais, a carteira problemática somava R$ 18,6 bilhões, ou 17,7% do total estadual.

Margens dos grãos e fertilizantes pressionam capacidade de pagamento

O levantamento identifica diferenças importantes entre agricultura e pecuária. Nos grãos, a queda dos preços reais e a piora das relações de troca com insumos reduziram a capacidade de geração de caixa.

Em 2025, foram necessárias, em média, 29,1 sacas de soja para adquirir uma tonelada de fosfato diamônico (DAP), contra 16,7 sacas na média de 2010 a 2019.

A comparação utiliza cotações internacionais do fertilizante convertidas em reais e o indicador de soja do Paraná, sem incluir fretes e tributos. Portanto, não corresponde ao custo final entregue na fazenda, mas permite acompanhar a evolução da relação de troca.

Segundo os autores, essa pressão foi menos intensa na pecuária, reforçando a necessidade de diagnósticos específicos por atividade.

Investimentos anteriores passaram a disputar um caixa menor

O investimento agropecuário cresceu 71% entre 2019 e 2025, passando de R$ 152 bilhões para R$ 260 bilhões, a preços de 2025, segundo estimativas apresentadas no trabalho.

Em 2025, o crédito rural para investimento financiou 36% desse total. Os demais 64% envolveram recursos próprios e outras formas de financiamento.

Os pesquisadores fazem uma distinção importante: essa parcela não pode ser tratada integralmente como dívida, porque também inclui capital próprio.

A hipótese central do estudo é que compromissos assumidos durante as margens favoráveis de 2020 a 2022 passaram a vencer quando a rentabilidade dos grãos diminuiu e os juros aumentaram. Com menor sobra operacional, o pagamento dos investimentos ficou mais difícil.

Dificuldades financeiras alcançam fornecedores e agroindústrias

O texto também reúne evidências de pressão sobre outros elos da cadeia, como revendas de insumos, agroindústrias, transportadoras e empresas de armazenagem.

Dados da Serasa Experian citados pelos autores apontam 1.990 pedidos de recuperação judicial no agro em 2025, alta de 56%, e 474 no primeiro trimestre de 2026.

Um dos mecanismos discutidos é o financiamento por troca de insumos por produção, conhecido como barter. Quando há frustração de safra ou dificuldade de entrega e pagamento, a restrição de caixa pode passar do produtor para a revenda e, depois, para a indústria.

Estudo defende respostas conforme a situação de cada produtor

Na avaliação dos autores, enfrentar o endividamento exige distinguir falta temporária de caixa de incapacidade persistente de pagar as obrigações.

O trabalho analisa as medidas de renegociação disponíveis no período e aponta alcance limitado da MP 1.376/2026. Segundo o balanço citado, até 5 de outubro haviam sido renegociados R$ 5,98 bilhões, cerca de 5% do montante potencial estimado de R$ 120 bilhões. As dívidas de investimento representavam apenas 1,3% do valor contratado.

Entre as propostas apresentadas estão a coordenação entre credores, planos de fluxo de caixa acompanhados de assistência técnica, fortalecimento dos instrumentos de seguro e maior transparência sobre as condições das renegociações.

Os pesquisadores ressaltam, por fim, que os dados mostram associações, mas não comprovam causalidade. Permanecem lacunas sobre a dívida fora do sistema financeiro, os juros dos acordos bilaterais e a separação dos atrasos entre custeio e investimento — informações necessárias para orientar respostas mais precisas.

Fonte: Portal do Agronegócio

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