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Simone critica populismo de Bolsonaro e Lula e tenta passar confiança ao eleitor

por Alexandro Zinho
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Senadora vê uma “avenida eleitoral” entre aqueles que definiram o voto por não aceitarem Bolsonaro nem Lula no Planalto.

Em casa, recuperando-se de uma infecção de covid-19, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) tirou o sábado para falar da campanha para a Presidência, já como pré-candidata oficial do autodenominado centro democrático — aliança integrada por MDB, PSDB e Cidadania. Na conversa com o jornal Correio Braziliense, criticou o populismo dos dois favoritos e tentou passar confiança de que pode se tornar uma candidata competitiva, a ponto de disputar o segundo turno. 

Sobre as divergências internas, a senadora reconhece que não terá unanimidade dentro dos partidos que compõem a tríplice aliança, e não vê problemas em dividir palanques ora com apoiadores de Lula, ora com bolsonaristas. Na entrevista, Tebet também falou de privatizações, machismo, violência contra a mulher e se colocou “radicalmente contra” armar a população civil.

A senhora se propõe a romper a polarização entre Lula e Bolsonaro. Mas os dois principais partidos da terceira via — MDB e PSDB — estão polarizados há muito tempo em vários estados.

Essa eleição é atípica em todos os sentidos. Primeiro, porque a minha candidatura era uma entre sete ou oito pré-candidatos. De dez dias para cá, as coisas mudaram, chegou-se ao meu nome. Agora, nós zeramos o jogo e começamos a construção em favor deste centro democrático. MDB e PSDB começaram com uma incerteza, eu tinha uma maioria não folgada e, agora, cheguei na última reunião da Executiva com mais de 90% de apoio. Aconteceu a mesma coisa no PSDB. A partir daí as coisas acontecem nos palanques regionais.

O processo, então, ocorre dentro do esperado?

Nesse aspecto, essa eleição não vai ser diferente das outras, apenas a pré-campanha, hoje, virou um Big Brother, está mais exposta. Nós sempre tivemos, num país da grandeza do Brasil, palanques regionais com decisões diferentes das posições nacionais. A diferença é que o centro democrático, agora, tem três partidos históricos unidos para apresentarmos uma alternativa a essa polarização ideológica que está levando o país para o abismo.

O eleitor vai perceber isso?

A sociedade e o eleitorado têm essa percepção. O eleitor, hoje, está optando pelo voto do “não”, e não pelo voto do “sim”. Nesse aspecto, temos uma avenida pela frente. E quando temos essa avenida eleitoral, automaticamente você cria apoios a partir do fortalecimento da sua candidatura. Os apoios virão quando nos posicionarmos e começarmos a pontuar nas pesquisas.

Como se equilibrar diante dessas divergências?

Sei que haverá estados em que teremos dois palanques, estados em que não teremos nenhum e estados em que nós teremos que dividir palanque com outras candidaturas, porque os candidatos a governador, muitas vezes, terão apoio de partidos que já têm candidatos à Presidência da República. Como é que vai fechar o palanque para um candidato só?

O eleitor vai perceber isso?

A sociedade e o eleitorado têm essa percepção. O eleitor, hoje, está optando pelo voto do “não”, e não pelo voto do “sim”. Nesse aspecto, temos uma avenida pela frente. E quando temos essa avenida eleitoral, automaticamente você cria apoios a partir do fortalecimento da sua candidatura. Os apoios virão quando nos posicionarmos e começarmos a pontuar nas pesquisas.

Como se equilibrar diante dessas divergências?

Sei que haverá estados em que teremos dois palanques, estados em que não teremos nenhum e estados em que nós teremos que dividir palanque com outras candidaturas, porque os candidatos a governador, muitas vezes, terão apoio de partidos que já têm candidatos à Presidência da República. Como é que vai fechar o palanque para um candidato só?

São os dilemas da política do mundo real…

Há um equívoco de achar que o palanque regional vai conseguir impor uma candidatura à Presidência da República. O que a gente precisa nessa união é a estrutura que esses partidos têm para oferecer — nem tanto a financeira. É do tempo de rádio, de televisão, a estrutura intelectual. Os três coordenadores (dos partidos aliados) estão conversando. Esse é um ativo muito importante para uma campanha. Hoje eu sou MDB, hoje eu sou PSDB, sou Cidadania, represento essa força, esse movimento.

E o que acontece agora?

A partir do momento em que, de forma organizada, começarmos a preparar um mesmo programa de governo, os presidentes (das legendas) terão força igualmente, os coordenadores de campanha vão ter força igualmente. A conta é simples: há 40% dos eleitores que não votam em candidato nenhum ou que podem mudar o voto. Se quase 60% não me conhecem e há 40% que não querem nenhum dos dois e pensam em mudar o voto, há uma avenida muito grande.

Qual foi o papel do senador Tasso Jereissati e do ex-governador Eduardo Leite nas negociações para destravar a terceira via?

Sobre Leite, tenho pouco a falar, estivemos juntos poucas vezes. Mas o fato de ele ter tido esse espírito democrático de reconhecer que o palanque regional é uma construção o coloca numa posição importante no processo. Tasso Jereissati, sim, somos muito próximos. Ele é um baluarte do PSDB. Foi importantíssimo nessa construção. Mas não podemos desmerecer quem foi decisivo na unificação, o presidente (do PSDB) Bruno Araújo. Ele foi incansável na demonstração de que este é um momento atípico em que não se pode dividir palanque.

Como pretende reduzir o crescimento da rejeição ao seu nome, conforme indicam algumas pesquisas?

Você rejeita o que não conhece. Eu sou desconhecida por mais de 60% do eleitorado. É natural que as pessoas não queiram votar em quem não conhecem. Ao mesmo tempo, por ser desconhecida, eu não tenho rejeição que me impeça de crescer. Essa é a facilidade de se unir a pessoas que pensam não de forma hegemônica, mas homogênea. Temos a mesma visão de Brasil e o mesmo entendimento para a saída da crise econômica. Nossa equipe não deixa de ter uma irmandade com a equipe econômica do PSDB.

A quem a senhora se refere?

Estou falando de Elena Landau, de pessoas que vieram nos ajudando e que são, de alguma forma, atreladas ao Plano Real. E a gente vinha dialogando, também, pois somos muito amigas, com a equipe feminina do PSDB do João Doria, como (a economista) Zeina Latif. São projetos que se somam. Vamos conversar, no momento oportuno, com (o ex-governador) João Doria, com (governador de São Paulo) Rodrigo Garcia. Queremos ouvi-los em relação ao plano de governo.

Como ele será elaborado?

O plano não está pronto, acabado, nem estará pronto até as convenções (partidárias, a partir do fim de julho), faço questão de dizer isso. O arcabouço e as linhas mestras estão muito bem definidas na minha cabeça. Criança, adolescente e família como centro das políticas públicas na sua transversalidade. O centro são as pessoas, o cidadão do presente e do futuro. A partir daí, tudo vem sob a ótica social, sob a ótica ambiental, de um governo eficiente como meio de alcançar o desenvolvimento sustentável. Temos uma visão muito similar sobre como alcançar essa justiça social, essa diminuição da desigualdade.

Lula e Bolsonaro são dois lados da mesma moeda?

É claro que não podemos igualar situações quando estamos diante de um presidente que não respeita as instituições democráticas. Mas, sim, no aspecto político-eleitoral, eles são (lados da mesma moeda), na medida em que se retroalimentam desse discurso do ódio, do nós contra eles, de uma polarização ideológica que não leva o Brasil a lugar nenhum. E só sobre essa ótica é que eles se retroalimentam.

Como ganhar votos no Nordeste, que está fortemente polarizado? Tasso Jereissati ajuda?

Ajuda a furar essa bolha. É na base do “nem um nem outro, vote numa mulher”. A mulher nordestina é a cara mais sofrida, mais pobre do Brasil, é a primeira a ser atingida em tudo, no desemprego, na fome, na falta de qualidade dos serviços públicos. Tenho convicção de que a mulher brasileira vai decidir essa eleição.

No Senado, a senhora votou com o governo Bolsonaro em pautas como a Reforma da Previdência e a autonomia do Banco Central. Mas foi contra o modelo de privatização da Eletrobras e se posiciona contra a venda da Petrobras. Qual a sua posição em relação à agenda econômica?

Essa narrativa dá mérito a um governo que não o merece. A Reforma da Previdência nunca foi pauta deste governo. A pauta estava pronta para ser votada no governo Michel Temer, mas foi interditada temporariamente por dificuldades políticas e jurídicas. A autonomia do Banco Central, da mesma forma. Não é uma pauta do Bolsonaro. A nossa pauta é de uma economia liberal, mas não o neoliberalismo sem alma do governo federal. Eu sou radicalmente contra esse liberalismo sem alma do Paulo Guedes. O Congresso só aprovou essas pautas porque soube equilibrar, tirar os excessos, a insensibilidade do governo.

E a privatização da Eletrobras?

Eu ia votar a favor porque sou favorável à capitalização. O problema é que o Congresso Nacional colocou um jabuti — e não era um jabuti qualquer. Mudou tudo e tornou inviável aprovar a proposta sem colocar a digital numa negociata corrupta e imoral que estava sendo feita, que era exigir para a capitalização que o governo investisse quase R$ 100 bilhões para levar gasodutos ao Nordeste com objetivo de atender a meia dúzia de usineiros sem gás e lobistas dentro do Congresso Nacional. Por isso não votei a favor da capitalização da Eletrobras. E que também não é um projeto do governo. Já vinha sendo discutida antes no Congresso.

Em relação à Petrobras, a senhora se mantém contrária à privatização?

Isso eu sou. Para mim, a privatização não pode ser um fim em si mesmo. Tem que ser um meio, tem que servir a dois propósitos: quando a empresa é deficitária e atenderia melhor as necessidades da sociedade se estivesse nas mãos da iniciativa privada, que é parceira; e quando ela não é estratégica, mesmo que superavitária. A Petrobras é superavitária e é estratégica para o desenvolvimento nacional. Seja porque tem uma grande missão social, com fundos sociais para educação, para saúde e meio ambiente, seja porque traz dividendos. É dinheiro na veia para educação, saúde, habitação e obras de infraestrutura. E ela é de relevante interesse público. Você pode até falar da privatização de subsidiárias, mas não da parte de produção. O petróleo é nosso, a produção é nossa. A Petrobras tem condições de servir ainda muito mais.

Qual o problema, então?

O problema da Petrobras é ser mal gerida. Escolhem-se presidentes da Petrobras para depois fazer ingerência política. Temos que colocar um presidente que tenha a noção exata do que ela representa. Ela é uma sociedade anônima, serve, sim, aos seus acionistas, mas tem como prioridade absoluta o fim social.

E a PEC dos combustíveis?

O caminho está errado. Há solução dentro da lei e não é populista. Você tem hoje um quadro excepcional: acabamos de sair de uma pandemia e entramos numa guerra com países produtores. Temos escassez de petróleo de um lado e desvalorização da nossa moeda de outro. Porque não soubemos nos conduzir bem na pandemia, o dólar subiu demais no Brasil, e isso não é culpa de guerra nenhuma, é culpa de uma má gestão.

É justo transferir recursos nesse montante, como quer o governo com a PEC, para baratear um pouco o combustível?

Claro que não. A saída está dentro da Constituição, primeiro podemos zerar PIS/Cofins não só do diesel, mas de toda a cadeia, até o fim do ano. Dá uma redução de até 80 centavos no litro, cerca de 11%, não é pouco. E, excepcionalmente, tem o crédito extraordinário, que pode ser usado temporariamente para subsidiar a gasolina. Não é um fundo de estabilização, que seria permanente, mas um caixa à disposição para fazer o preço baixar em até R$ 1,50 na bomba só com essas medidas. Esse é um problema temporário. Mas, se o governo não der outras alternativas, eu prefiro votar favoravelmente ao projeto e ver o preço da comida da cesta básica cair nas gôndolas do supermercado. Eu sei que a fome está relacionada também ao preço dos combustíveis.

A foto da reunião de cúpula dos três partidos, quando foi fechado o acordo da terceira via — a senhora participou por videoconferência —, só mostrava homens no gabinete do senador Tasso Jereissati… 

…E só homens brancos, não é?

Pois é, foi uma foto simbólica para quem defende a igualdade entre homens e mulheres. Esse debate tem discurso, mas não tem prática?

Com perseverança e certeza de que estamos no caminho certo. A política brasileira vai encontrar o seu caminho quando tiver pelo menos 30% de mulheres eleitas e participando das comissões executivas dos partidos. Por outro lado, é a primeira vez que o maior partido do Brasil lança uma candidata mulher. É a primeira vez que o centro democrático se une em torno de uma candidata mulher. Embora aquela foto tenha sido masculina, ela estava em torno de uma candidatura feminina. E isso é um avanço.

Como vê esse movimento pró-armas para a população civil, patrocinado pelo presidente Bolsonaro?

Sou radicalmente contra. As principais vítimas das armas de fogo são os jovens e as mulheres. Nada mais caro para uma mãe do que a proteção dos seus filhos. Fui a primeira mulher a comandar, no Congresso, a Comissão de Combate à Violência Contra a Mulher. As estatísticas mostram que, dentro de casa, a principal vítima da violência é a mulher. O Brasil não está preparado para andar armado, ainda mais em um momento conflituoso como o que nós vivemos.

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